Fundadora do HBRFEST, Talize destaca a diversidade e talento do Brasil na Sétima Arte, no evento que teve a exibição de produções já premiadas em outros festivais, a promoção de cineastas brasileiros independentes e a celebração de nomes já aclamados. Ela também refaz seu caminho até aqui, desde a saída há 35 anos do Brasil ,mais especificamente, de Duque de Caxias, até a meca do cinema internacional. “Há 14 anos senti a motivação para criar esse festival como plataforma para esse cinema novo. Decidi vender meu apartamento, meu carro e fui produzi-lo para mostrar esse cinema autoral para o resto mundo”

Um dos mais relevantes festivais, em franco crescimento, o Hollywood Brazilian Film Festival foi realizado semana passada em Los Angeles, na Califórnia, dando continuidade à sua missão como expoente criado para fazer a ponte entre Hollywood, a comunidade cinematográfica mundial, e a indústria do cinema brasileiro. Na edição comemorativa dos 15 anos do evento, destacou-se a diversidade do Brasil na Sétima Arte com a exibição de produções já premiadas em outros festivais, a promoção de cineastas brasileiros independentes e a celebração de nomes já aclamados, como Kleber Mendonça Filho, que levou o seu documentário ‘Retratos Fantasmas‘, representante brasileiro a uma vaga para o Oscar 2024, para a abertura do HBRFEST. O festival, com curadoria plural, também homenageou a atriz Sonia Braga, que levou nosso cinema para o mundo. 

À frente do projeto desde 2009, sua idealizadora, a brasileira Talize Sayegh, vive em Los Angeles há 35 anos, e nesta entrevista revisita o suado caminho até aqui, esperançosa do porvir para os novos talentos da nossa indústria. “Antes de criar o festival, eu trabalhava para outras mostras internacionais gigantes como produtora e percebia que os filmes que chegavam lá eram aqueles com maior orçamento, de nomes já reconhecidos. Não via muito espaço para quem estava chegando. Além de identificar, que durante um período, as produções que se destacavam fora do Brasil tinham em comum o fato de mostrarem o nosso país de forma decadente, umas tentativas de ‘remakes’ de ‘Cidade de Deus’ (ovacionado filme de Fernando Meirelles de 2002). Trabalhando com a Ilda Santiago, comecei a ver esse cinema que vinha do coração do país, os filmes do Recife, que não viajavam, porque não tinham dinheiro. Com isso, há 14 anos senti a motivação para criar o festival como plataforma para esse cinema novo. Decidi vender meu apartamento, meu carro e fui produzi-lo para mostrar o nosso cinema autoral para o resto mundo”, conta.

Talize Sayegh é criadora do Hollywood Brazilian Film Festival localizado em Los Angeles, Califórnia, desde 2009 (Divulgação)

Talize Sayegh é criadora do Hollywood Brazilian Film Festival localizado em Los Angeles, Califórnia, desde 2009 (Divulgação)

“Sempre soube que poderia conectar as pessoas, sou boa nisso. Gosto de fazer as redes entre elas para que trabalhem e cresçam juntas. Esse ano tive a honra que fazer uma parceria com a Spcine e pude trazer sete diretores pretos e indígenas e fizemos rodadas de master classes na NBC, Netflix, na Disney. Isso mostra que o festival não é só para a exibição de filmes, mas evidencia que nossa arte, nosso storytelling não deixa nada a desejar no que é feito no resto do mundo”. E pontua sobre a representatividade tão negligenciada por anos no audiovisual se fazer cada vez mais visível. “Os negros representam a maioria da população brasileira, 57%, e somente 2% deles estão no entretenimento. Então, este ano nos unimos com a ação afirmativa da Spcine e foi inesquecível. Vieram excelentes profissionais, galera competente, já nominada ao Emmy, talento não falta”.

O que estamos tentando fazer via festival é unir esses talentos a quem pode expandir as possibilidades dessas carreiras – Talize Sayegh

Davi Copenawa, Morzaniel Ɨramari, Taika Waititi e Talize Sayegh no Hollywood Brazilian Film Festival (Divulgação)

Davi Copenawa, Morzaniel Ɨramari, Taika Waititi e Talize Sayegh no Hollywood Brazilian Film Festival (Divulgação)

A produtora também comemora: “Tivemos um momento histórico nesta edição, que foi o encontro do diretor Taika Waititi, ganhador do Oscar por ‘Jojo Rabbit‘ (2020), que mediou o filme ‘Mãri Hi – A árvore do sonho‘, do povo yanomami, com Davi Copenawa, do Morzaniel Ɨramari, e foi um momento incrível. Juntamos um  dos maiores diretores de Hollywood, que é neozelandês, então indígena, aborígene, com um diretor yanomami. São pessoas que talvez não tivessem essa oportunidade de aproximação se não fosse o cinema. Ele une as pessoas, faz você conhecer melhor as culturas. E o cinema autoral tem algo a dizer, deixa alguma reflexão, você gostando ou não. Não se sai no automático deste tipo de filmes, eles nos fazem sentir. E estamos precisando sentir mais”.

"Há 14 anos senti a motivação para criar esse festival estímulo como plataforma para esse cinema novo. Decidi vender meu apartamento, meu carro e fui produzi-lo" (Divulgação)

“Há 14 anos senti a motivação para criar esse festival estímulo como plataforma para esse cinema novo. Decidi vender meu apartamento, meu carro e fui produzi-lo” (Divulgação)

História de cinema

Aos 45 anos, Talize também relembra sua trajetória do Brasil até aqui. “Vim morar em Los Angeles aos 10 anos. Minha mãe, Tânia, tinha um namorado que estimulou que viéssemos, quando demos por conta, já estávamos no México ultrapassando a fronteira. Minha mãe é muito guerreira. Éramos muito pobres, então não tínhamos muita noção do mundo. Quando ela quis vir, era para tentar dar uma vida melhor para mim. Bom, quando chegamos aqui, descobrimos que o cara era casado. Minha mãe terminou com ele e queria voltar para o Brasil, mas só tinha 20 dólares no bolso”, lembra. “A mulher dele na época, nos acolheu por um tempo. Sororidade. Ela virou da família, a Sônia. Tive sorte de ter mulheres batalhadoras como exemplo na vida. Minha mãe começou fazendo faxina, virou garçonete, virou corretora e faz isso até hoje. Um tempo depois, conheceu meu padrasto e está casada com ele há 30 anos”.

Tânia e Talize Sayegh: "Minha mãe é grande apoiadora e exemplo de mulher guerreira" (Reprodução/Instagram)

Tânia e Talize Sayegh: “Minha mãe é grande apoiadora e exemplo de mulher guerreira” (Reprodução/Instagram)

Ela e a mãe saíram há mais de 30 anos do município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, onde moravam com seu tio, grande estimulador da sua criatividade. “Era um tio gay e toda arte que chegou em mim veio através dele. Era ator, se chamava Jefferson Sayeg, e abriu todo um universo artístico para mim. Devo muito a ele, que também ajudou a me criar. Éramos pobres, mas ele costurava minhas roupas, então andava sempre muito bem vestida. Era sua boneca. E eram roupas criativas. As crianças sempre me perguntavam quando eu me vestiria normal, mas para mim aquele era o normal (risos). Tive uma infância maravilhosa. Lembro que uma vez meu tio disse que íamos cozinhar no quintal, fez ovos esfumados, coisa que hoje os chefs de cozinha cobram caro para fazer. Só de falar, sinto o gosto ainda, foram os melhores ovos da vida. O que eu não sabia, é que ele cozinhou assim porque ficamos sem gás.

Nunca soube que eu era pobre, porque a criatividade do meu tio era muito florescente. Ele faleceu de AIDS, sinto muita saudade. Sou grata a ele e minha mãe por tudo – Talize Sayegh

"O que estamos tentando fazer via festival, é unir esses talentos a quem pode expandir as possibilidades dessas carreiras" (Divulgação)

“O que estamos tentando fazer via festival, é unir esses talentos a quem pode expandir as possibilidades dessas carreiras” (Divulgação)

E completa, contornando mais a própria história: “A paixão pelo cinema veio desse meu tio. Quando estou triste, é o cinema que me acolhe, é para lá que corro. Em tudo o cinema me salva. Mas lá atrás, achava que fazer cinema era só para os ricos. Até que um dia, meu padrasto, o Luiz, chegou em casa com um panfleto do festival Laliff (Los Angeles Latino International Film Festival). Fui até lá e vi o que era o cinema independente, percebi que não era tão inalcançável. Conheci o Edward James Olmos (ator, diretor, escritor e produtor. Um dos fundadores do LaLiff), meu mentor até hoje. Escrevi uma carta para ele de cinco páginas e pedi uma oportunidade. Comecei ali, primeiro negociando filmes. Tive sorte, mas trabalho muito, tenho uma garra imensa”.

Nova fase à vista

“Sinto que essa edição foi a da virada do festival. Para o americano, a coisa mais importante é a consistência, e finalmente consegui evidenciar bem a missão desse projeto que criei. Não é só um espaço de divulgação, mas de transformação, inclusão”, reflete.

Talize revela ainda: “Estou iniciando oficialmente minha carreira como produtora executiva, estou indo para o Brasil para isso. Produzo a série ‘Anderson Spider Silva‘, para a Paramount +, também sou manager dele e de alguns profissionais. Além disso, estou trabalhando na série sobre Carmen Miranda para a Amazon, dirigida por Stephan Elliott, que também dirigiu ‘Priscilla – A Rainha do Deserto‘ (1994). Meu objetivo hoje, quando não estiver trabalhando para o festival, é fazer essas conexões, produzir coisas que acredito, as minhas histórias”. E finaliza:

O sonho agora é que o meu país me apoie mais, porque o festival que fazemos é para se ter orgulho. Mostramos o Brasil em seu maior nível, o cultural – Talize Sayegh

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