18/09/2026
A câmera estava pronta, mas Ísis Rosa não. Durante uma entrevista, enquanto outras crianças eram fotografadas, ela permanecia com vergonha e resistia a ocupar o centro do painel. Então alguma coisa mudou. Ísis se aproximou, posicionou-se diante do cenário e começou a sorrir para as fotos. Para sua mãe, aquele instante foi a confirmação de algo que até então a família ainda observava com curiosidade: estar diante das câmeras era uma experiência da qual a menina genuinamente gostava.
Aos dois anos e quatro meses, Ísis vive em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul. Sua história nas redes sociais não começou com a intenção de construir uma carreira de influenciadora. O Instagram surgiu primeiro por uma necessidade muito mais concreta: a família criou uma vaquinha para ajudar a custear uma cirurgia da menina e passou a compartilhar sua rotina. Depois veio um convite para um teste pela VNZ. Segundo a mãe, Ísis foi aprovada e, a partir daí, a família começou a conhecer um universo no qual percebeu que ela se sentia confortável sendo ela mesma.
Esse ponto de partida muda a maneira de observar sua presença digital. A deficiência auditiva faz parte da história de Ísis, mas a mãe estabelece uma distinção importante ao falar sobre o maior desafio encontrado até agora: fazer as pessoas compreenderem que essa condição não altera quem a filha é. “Ela é uma criança como todas as outras e apenas fala uma outra língua”, explica.
Além de moda e registros do cotidiano, o perfil passou a mostrar aquilo que Ísis aprende em Libras. Os primeiros sinais estão entre as lembranças mais emocionais da família. A mãe conta que acompanhar esse aprendizado trouxe felicidade aos pais, assim como cada novo ensaio fotográfico passou a ser recebido com orgulho. Entre uma fotografia e outra, portanto, existe uma menina aprendendo a se comunicar e uma família permitindo que esse processo apareça sem transformá-lo em limitação.
Quando descreve a filha, a mãe reúne características muito próprias da primeira infância: carismática, simpática, ativa, feliz, carinhosa, cuidadosa e brincalhona. Diz também que Ísis é independente, aventureira e que seu carisma nunca precisou ser forçado. A motivação da família para continuar produzindo conteúdo vem justamente da reação da menina ao processo: o interesse por fotografar, gravar vídeos e desfilar.
Essa espontaneidade orienta também a seleção do que chega às redes. As decisões são conversadas em família e, segundo a entrevista concedida à VOLPH, a prioridade é publicar fotografias de qualidade e vídeos em que Ísis esteja se divertindo. “A realidade do momento sempre é muito importante”, afirma a mãe.
É um critério especialmente relevante quando falamos de uma criança tão pequena. Existe uma indústria inteira capaz de organizar cenários, roupas, poses e narrativas ao redor da infância. Mas uma boa fotografia infantil não deveria apagar aquilo que existe antes dela. Se o conteúdo depende de uma criança, o humor, o interesse e o tempo dessa criança precisam continuar fazendo parte da equação.
A própria família estabelece esse limite quando questionada sobre o que uma marca deveria compreender antes de trabalhar com Ísis: ela ainda é uma criança e, por isso, haverá dias em que simplesmente não estará em seu melhor momento, mesmo gostando do que faz.
Essa frase vale mais do que qualquer promessa de profissionalismo precoce.
No trabalho com marcas, a trajetória também está no início. A mãe cita roupas, acessórios e calçados entre os segmentos que considera compatíveis com a filha. O primeiro recebido de uma loja aparece como uma conquista importante, enquanto a parceria com a Boutique Lore Kids permanece como a colaboração mais especial para a família por ter sido, segundo ela, a primeira marca a enxergar potencial em Ísis.
Ainda não há razão para transformar esses movimentos iniciais em uma narrativa de sucesso consolidado. Há algo mais interessante acontecendo: a construção de repertório. Ísis experimenta a fotografia, o desfile, a moda e a produção de vídeos enquanto sua família aprende, junto com ela, como funciona esse mercado.
Ao mesmo tempo, Libras acrescenta ao perfil uma dimensão que não precisa ser artificialmente transformada em discurso. Quando uma criança compartilha aquilo que está aprendendo, a comunicação acontece de maneira muito mais natural. A diferença está presente, mas não ocupa todo o espaço. Ísis pode aparecer aprendendo sinais em um vídeo e, no seguinte, simplesmente estar interessada em uma roupa, uma brincadeira ou uma fotografia.
Esse equilíbrio também ajuda a evitar uma armadilha comum quando histórias de crianças com deficiência chegam ao espaço público: reduzi-las à própria condição ou exigir delas uma narrativa permanente de superação. O que a entrevista da mãe apresenta é mais cotidiano. Ísis aprende rápido, gosta de se comunicar, diverte-se diante das câmeras e segue vivendo experiências compatíveis com sua idade.

Quando fala sobre os próximos três anos, a família imagina Ísis construindo novas parcerias, mostrando o que faz e, sobretudo, encorajando outras crianças a seguirem seus interesses independentemente das opiniões externas. Há também um desejo específico de que sua trajetória possa alcançar e inspirar outras crianças surdas.
É uma ambição que merece ser observada na proporção correta. Aos dois anos, Ísis não precisa carregar a responsabilidade de representar uma comunidade, construir uma grande carreira ou saber exatamente quem deseja ser. Existe muito tempo entre o primeiro ensaio e qualquer definição futura.
Por enquanto, talvez a imagem mais precisa continue sendo aquela do início: uma menina pequena que primeiro hesitou diante do painel e depois decidiu se aproximar.