19/09/2026
Existe uma contradição bonita na história de Bernardo Souza. Quem encontra suas fotografias pode ver um menino espontâneo, expressivo, carismático diante das câmeras, interessado em moda e capaz de variar poses com desenvoltura. O que a imagem não entrega imediatamente é que, fora dela, Bernardo ainda é muito tímido.
Aos sete anos, Bernardo Araújo Carvalho de Souza vive em Salvador, Bahia, e começou sua trajetória como modelo. Fotografar não aparece, no relato de sua mãe à VOLPH, como uma obrigação construída pelos adultos ao redor dele. É justamente o contrário: entre as razões que o mantêm interessado nesse universo está uma resposta bastante simples — Bernardo ama fazer fotos.
Sua mãe aparece desde o princípio dessa história. Quando perguntada sobre quem o inspirou no início, a resposta é direta: “a mamãe”. Mais adiante, ao falar sobre aquilo que o move diariamente, a família volta a ocupar o centro, agora acompanhada pela fé: “o amor de Deus e o da minha família”. São respostas curtas, mas juntas explicam muito sobre a estrutura emocional em torno de uma criança que começa a experimentar exposição, trabalho e novos ambientes antes mesmo de completar uma década de vida.
E é justamente quando essa estrutura encontra o medo que a história de Bernardo ganha outra dimensão.
Sua mãe identifica como uma virada de chave a aprovação para participar do Av Trend Bahia. Mas a conquista mais reveladora não está apenas em ter sido selecionado. Está no que aconteceu quando Bernardo precisou desfilar.
A passarela era seu maior desafio.
Segundo as respostas concedidas à VOLPH, ele sentia medo de desfilar. Ainda assim, enfrentou a experiência e terminou aquele festival com o título de Mini Mister. O questionário não detalha o nome do festival, a categoria completa ou as circunstâncias da premiação; por isso, não cabe ampliar o feito além do que a própria família registrou. O que importa para compreender Bernardo é outra coisa: o menino que tinha medo entrou na passarela mesmo assim.
Quando sua mãe fala sobre a maior conquista do filho até agora, ela também não escolhe primeiro um título, uma campanha ou uma fotografia. Escolhe uma mudança que dificilmente cabe em uma moldura: “enfrentar meus medos, superar a timidez e me permitir viver novas experiências com mais confiança”. E completa: “Para isso minha família sempre é meu porto seguro.”
Há algo particularmente comovente nessa escolha porque ela reposiciona toda a história. Para uma família, às vezes a vitória que o público enxerga não é a mesma que acontece nos bastidores. O título pode ser guardado. A fotografia pode ser publicada. A passarela pode terminar. Mas ver uma criança que você conhece intimamente atravessar um medo que antes parecia maior do que ela tem outra medida.
Ela orienta e supervisiona as publicações, participa da escolha dos trabalhos e acompanha o filho em um ambiente que exige decisões adultas ao redor de uma pessoa que continua em formação. Bernardo participa da seleção do próprio conteúdo e demonstra preferência por registros de sua rotina, moda, ensaios fotográficos, brincadeiras e momentos de descontração. Segundo a entrevista, também considera seu interesse e sua afinidade com as propostas antes de participar de campanhas.
Essa participação importa porque preserva algo que não deveria desaparecer quando uma criança começa a ser chamada de modelo ou influenciadora: vontade própria.
A descrição feita pela mãe é extensa. Bernardo aparece como inteligente, curioso, amoroso, carinhoso, cuidadoso, respeitador, engraçado, brincalhão, alegre, decidido, determinado, extrovertido, carismático e cheio de energia, entre outras características. Algumas parecem até contraditórias quando colocadas ao lado da timidez que ela revela depois. Não são. Crianças não precisam caber em uma característica única.
É possível ser tímido e gostar da câmera. Ser reservado em determinados contextos e expansivo em outros. Sentir medo de uma passarela e, ainda assim, descobrir prazer em atravessá-la.
Essa diferença entre personalidade e performance é especialmente importante em uma época em que redes sociais facilmente transformam uma pequena parte da vida em identidade inteira. No caso de Bernardo, sua mãe define a autenticidade de maneira descomplicada: ser espontâneo, natural e fazer aquilo de que gosta. O conteúdo procura refletir isso.
Há também um limite muito claro para o mercado. Quando perguntada sobre o que uma marca precisa compreender antes de trabalhar com Bernardo, a resposta traz uma precisão que deveria acompanhar qualquer carreira infantil: apesar de seu estilo clássico, ele ainda é uma criança.
A frase merece permanecer sem ornamento.
Porque roupas podem fazê-lo parecer mais formal. Uma produção pode pedir determinada postura. Uma fotografia pode transmitir segurança. Uma premiação pode acrescentar um título ao nome. Nada disso antecipa sua idade.
Isso significa que brincar, mudar de ideia, sentir vergonha, precisar da mãe, cansar, experimentar e descobrir o que gosta não são obstáculos à carreira. São parte da infância que existe antes dela.
Até aqui, a família afirma que ele ainda não precisou lidar diretamente com críticas ou pressão da internet. É uma informação relevante justamente porque evita construir uma narrativa que não aconteceu. O digital ainda está sendo descoberto, assim como as relações comerciais. Entre as marcas que fazem sentido, a resposta da entrevista também foge de uma lista de segmentos e estabelece um critério pessoal: aquela que o faça sentir-se bem. A parceria com ELLITE e VOLPH foi citada pela família como a mais especial até agora.
Quando se pergunta a uma família sobre o futuro de uma criança que começa cedo, existe sempre o risco de escrever o amanhã com uma certeza que ninguém possui.
A mãe de Bernardo imagina o filho crescendo como influenciador, ampliando sua comunidade, participando de campanhas, ensaios, eventos e projetos com marcas, enquanto desenvolve sua comunicação e acumula experiência como modelo e criador de conteúdo. Também fala em crescimento “com responsabilidade”, acompanhado pelo apoio e pela orientação familiar. Seu sonho profissional é continuar avançando na carreira e conquistar novas oportunidades.
Ao ser perguntada sobre a lembrança mais marcante de Bernardo até agora, sua mãe não menciona o título conquistado depois do medo da passarela. Não escolhe a aprovação que marcou sua entrada em uma nova fase. Ela responde: “Minha primeira capa de revista.”
Talvez seja justamente aí que esta história encontre sua imagem mais íntima.

Uma capa é pública. Circula, recebe olhares, transforma uma fotografia em objeto editorial. Para quem vê de fora, é uma publicação. Para uma mãe que acompanhou a timidez do filho, os medos que ele precisou atravessar e a alegria que sente quando está diante de uma câmera, aquela mesma capa guarda coisas que o leitor não consegue enxergar.
Guarda o menino antes da pose.
Guarda a mão que esteve perto quando ele precisou de segurança.
Guarda uma família que, nas palavras registradas na entrevista, tornou-se seu “porto seguro”.
E guarda também algo que nenhuma fotografia consegue congelar completamente: Bernardo está crescendo.
Por isso, o aspecto mais interessante de sua trajetória até aqui não é tentar prever até onde ele chegará. É perceber como cada experiência parece ampliar, pouco a pouco, o espaço que ele acredita ser capaz de ocupar.