Toronto olha para fora dos grandes estúdios — e encontra um cinema mais difícil de prever

Em sua 51ª edição, o Festival de Toronto amplia o espaço de produções independentes e histórias internacionais enquanto Hollywood reconsidera sua relação com os festivais. O movimento pode dizer bastante sobre onde surgirá a próxima imagem capaz de atravessar a cultura.

Durante décadas, um grande festival de cinema oferecia uma imagem relativamente fácil de compreender. Estúdios chegavam com suas produções mais importantes, estrelas atravessavam tapetes vermelhos, críticos começavam a construir consensos e alguns filmes saíam dali com a primeira indicação de que poderiam chegar fortes à temporada de prêmios. Essa estrutura ainda existe, mas Toronto está mostrando que ela já não funciona exatamente da mesma maneira.

A 51ª edição do Toronto International Film Festival, realizada entre 10 e 20 de setembro, reúne quase 300 filmes e coloca uma atenção particularmente forte sobre produções independentes, documentários e narrativas internacionais. Ao mesmo tempo, algumas das grandes companhias que tradicionalmente utilizavam festivais como plataforma de lançamento reduziram sua presença, preferindo levar determinados títulos diretamente ao mercado.

Essa mudança poderia ser interpretada como perda de força. Talvez seja mais interessante enxergá-la como abertura de espaço.

Quando os filmes mais caros deixam de ocupar automaticamente o centro da conversa, outras obras ganham a possibilidade de chegar até ele. E o que está acontecendo em Toronto sugere que uma parte importante do futuro do cinema pode surgir justamente desse território menos previsível.

A própria direção do festival parece consciente dessa transformação. Anita Lee, diretora de programação do TIFF, afirmou que existe uma mudança demográfica na audiência do cinema, especialmente entre espectadores mais jovens, interessados em narrativas diversas e internacionais para além da produção tradicional de Hollywood. A seleção deste ano acompanha esse movimento, aproximando filmes de gênero, documentários políticos, novas vozes e produções independentes de títulos construídos para audiências maiores.

É uma mudança significativa porque durante muito tempo “cinema independente” funcionou quase como uma categoria paralela. Havia o centro da indústria e, ao redor dele, obras menores tentando atravessar a fronteira. O comportamento contemporâneo da audiência começa a tornar essa divisão menos evidente.

Um dos exemplos mais interessantes está justamente na história recente do próprio festival.

Em 2025, Obsession, terror de orçamento reduzido dirigido por Curry Barker e protagonizado por Inde Navarrette, chegou a Toronto como uma produção independente procurando distribuição. Um ano depois, retorna ao festival em circunstâncias completamente diferentes: o filme já acumulou cerca de US$ 512 milhões nas bilheterias mundiais e seus realizadores passaram a ocupar uma posição muito maior dentro da indústria

Existe algo quase didático nessa trajetória.

O filme pequeno que precisava ser descoberto tornou-se o fenômeno que todos querem compreender.

Essa é uma das razões pelas quais festivais continuam relevantes mesmo quando grandes estúdios decidem não utilizá-los. A função de um festival não precisa ser apenas confirmar a importância daquilo que já chega importante. Talvez sua função mais interessante seja oferecer contexto, público e atenção suficientes para que alguma coisa ainda desconhecida consiga crescer.

Toronto sempre teve uma relação particular com esse processo porque não é apenas um festival voltado para a indústria. Existe uma presença muito forte do público. Essa proximidade permite observar algo que números de marketing nem sempre conseguem antecipar: a reação real de uma sala diante de uma história.

Às vezes, essa história está longe daquilo que tradicionalmente seria considerado uma aposta óbvia.

A abertura desta edição com Being Heumann, de Siân Heder, é um bom exemplo. Depois de dirigir CODA, vencedor do Oscar de Melhor Filme, Heder voltou ao cinema com a história de Judith Heumann, uma das figuras fundamentais do movimento pelos direitos das pessoas com deficiência nos Estados Unidos. Ruth Madeley interpreta Heumann, e o elenco é formado predominantemente por atores com deficiência.

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O filme recupera especialmente a mobilização de 1977 em São Francisco, quando ativistas ocuparam um prédio federal durante 28 dias para pressionar o governo americano pela implementação da Seção 504 da Rehabilitation Act, legislação fundamental contra a discriminação de pessoas com deficiência.

A importância cultural dessa produção não está somente na história representada na tela.

Está também na maneira como ela foi produzida.

Heder buscou atores com deficiência para interpretar personagens com deficiência e trabalhou para que os próprios espaços de filmagem fossem acessíveis. É uma diferença importante porque representação pode ser convincente diante da câmera enquanto as estruturas responsáveis por produzir aquela imagem permanecem exatamente iguais atrás dela.

Esse debate se torna ainda mais interessante porque a diretora já havia atravessado algo semelhante com CODA. O sucesso daquele filme, incluindo o Oscar conquistado por Troy Kotsur, primeiro homem surdo a vencer uma categoria de atuação na premiação, parecia oferecer a Hollywood uma evidência bastante clara de que histórias protagonizadas por pessoas com deficiência poderiam alcançar grandes audiências. Heder afirma, porém, que a transformação da indústria depois daquele momento foi muito menor do que esperava.

Isso revela uma diferença essencial entre exceção e mudança.

Uma indústria pode celebrar um filme sem alterar suas estruturas. Pode premiar um ator e continuar oferecendo poucas oportunidades para outros profissionais semelhantes. Pode transformar diversidade em acontecimento sem incorporá-la ao funcionamento cotidiano.

É por isso que Being Heumann interessa para além de sua condição de filme de abertura.

Ele coloca dentro de um grande festival uma discussão sobre quem aparece nas histórias e, simultaneamente, quem recebe condições para produzi-las.

Toronto apresenta outras pistas dessa ampliação de perspectiva. Entre os documentários selecionados está Rescue, de Sine Plambech, sobre a crise migratória no Mediterrâneo, e Tehran, Under the Skin, de Afsaneh Salari, que observa a indústria da beleza iraniana. O festival também recebe um documentário de Alex Gibney sobre Elon Musk, além de produções vindas de diferentes territórios e gêneros.

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O que existe é uma ampliação do repertório de experiências consideradas capazes de ocupar uma grande tela.

Essa diversidade também aparece no gênero. Stuffed, por exemplo, transforma a relação entre uma taxidermista e um homem que deseja ter o próprio corpo preservado depois da morte em um musical de humor sombrio e romance. Wildwood, da Laika, continua a investigação técnica do estúdio em animação stop-motion, utilizando centenas de bonecos e anos de produção para construir um universo que combina trabalho artesanal e tecnologia.

São filmes difíceis de colocar dentro da mesma caixa.

Talvez seja exatamente esse o ponto.

Durante muito tempo, a indústria cultural aperfeiçoou mecanismos capazes de identificar aquilo que já funcionou e reproduzi-lo. Franquias, sequências, propriedades intelectuais conhecidas e fórmulas narrativas oferecem uma vantagem evidente: diminuem parte do risco.

Mas cultura não se movimenta apenas pela repetição do que já sabemos desejar.

Algumas das imagens mais importantes aparecem quando ainda não existe uma categoria confortável para recebê-las.

Isso não significa que o cinema independente seja automaticamente mais original ou que grandes estúdios tenham deixado de produzir obras relevantes. A distinção seria simplista. Grandes produções podem assumir riscos, enquanto um filme pequeno pode repetir fórmulas com a mesma facilidade.

O que está mudando é a distribuição da atenção.

Quando algumas companhias deixam de considerar indispensável uma grande estreia em festival, instituições como Toronto precisam redefinir sua função. O TIFF já responde também do ponto de vista industrial: prepara a criação de um mercado formal de cinema e fortalece sua relação com distribuidoras independentes e compradores internacionais.

Festival, nesse sentido, deixa de ser somente vitrine.

Torna-se infraestrutura de descoberta.

E essa palavra merece atenção porque descobrir não significa simplesmente encontrar alguém desconhecido. Significa reconhecer valor antes que o consenso torne esse reconhecimento fácil.

O sucesso de Obsession representa uma versão quase perfeita dessa dinâmica. Ninguém precisava que Toronto explicasse a importância de um filme depois de ele ultrapassar meio bilhão de dólares em bilheteria. O valor do festival estava no momento anterior, quando aquela possibilidade ainda não era evidente.

É nesse intervalo que cultura e mercado se encontram de maneira mais interessante.

Antes da campanha.

Antes da premiação.

Antes do algoritmo confirmar que milhões de pessoas querem assistir.

Existe uma obra e existe alguém disposto a colocá-la diante de uma audiência.

Toronto parece estar aceitando cada vez mais esse papel.

Talvez o futuro dos grandes festivais não esteja em concentrar todas as produções que Hollywood já decidiu transformar em acontecimentos. Pode estar justamente em criar o espaço no qual algo consiga se tornar um acontecimento sem ter chegado com esse status.

Isso também exige alguma disposição do público.

Descoberta pressupõe risco.

Entrar em uma sala sem conhecer completamente o diretor. Assistir a uma história que não pertence a uma franquia. Encontrar um ator que ainda não foi transformado em celebridade. Permanecer diante de uma linguagem que talvez não tenha sido construída para agradar imediatamente.

É uma relação diferente com cultura.

Menos baseada em confirmação e mais aberta à surpresa.

A 51ª edição do TIFF acontece enquanto a indústria cinematográfica continua procurando respostas para mudanças profundas de distribuição, audiência e comportamento. Ainda é cedo para saber quais modelos vão permanecer. Mas Toronto oferece uma pista importante: talvez um festival não precise competir com Hollywood pela capacidade de produzir o maior espetáculo.

Pode fazer algo que o tamanho, por si só, não garante.

Encontrar aquilo que ainda não sabemos que queremos ver.

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