Os nomes que chegam à New York Fashion Week antes do consenso

Jamie Haller, Bad Binch TongTong, Milamore e Conner Ives entram pela primeira vez no calendário oficial da temporada. Mais interessante do que perguntar quem será o próximo grande nome é observar o que cada um já está construindo.

A moda costuma reconhecer seus novos nomes em duas etapas. Primeiro existe o trabalho. Depois vem o momento em que a indústria decide prestar atenção.

A New York Fashion Week de Primavera/Verão 2027 oferece uma oportunidade especialmente interessante de observar esse intervalo. Entre marcas consolidadas, retornos e grandes produções, o calendário oficial recebe uma série de estreias. Três delas pertencem a finalistas do CFDA/Vogue Fashion Fund de 2026: Jamie Haller, Bad Binch TongTong, de Terrence Zhou, e Milamore, de George Inaki. Conner Ives, nascido em Nova York e já conhecido pelas temporadas apresentadas em Londres, também faz sua primeira participação no calendário oficial da CFDA.

Nenhum desses nomes começa exatamente do zero.

E talvez esse seja o primeiro ponto importante.

“Emergente” é uma palavra frequentemente usada de maneira imprecisa na moda. Pode descrever alguém recém-saído da faculdade, uma marca independente com vários anos de operação ou um designer que já vestiu pessoas conhecidas, vende internacionalmente e recebe atenção editorial, mas ainda não alcançou a escala de uma grande casa.

O que une esses quatro casos não é a ausência de trajetória. É a chegada a um novo nível de visibilidade.

Jamie Haller e o valor de fazer menos, melhor

Jamie Haller talvez seja a menos interessada em produzir uma primeira impressão barulhenta.

Depois de mais de duas décadas trabalhando na moda de Los Angeles, ela lançou sua marca homônima em 2020 inicialmente com calçados produzidos na Itália. O projeto posteriormente cresceu para incluir roupas e acessórios. Em junho deste ano, Haller foi escolhida entre os dez finalistas do CFDA/Vogue Fashion Fund de 2026.

Quando o CFDA pediu que definisse sua marca em uma palavra, ela escolheu “comfortable”. Ao falar sobre aquilo que considera subestimado na moda atualmente, respondeu: materiais realmente bons e um caimento confortável.

Pode parecer uma resposta simples.

Não é.

Em um mercado treinado para produzir novidade continuamente, existe algo bastante seguro em construir desejo por meio da qualidade de uma matéria-prima, da proporção e da experiência física de usar uma peça. É uma proposta que depende menos de explicar a roupa e mais de fazê-la funcionar.

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Há também outra dimensão interessante em Haller: além da moda, ela trabalha com restauração de casas históricas e interiores. Essa relação com espaço, materiais e permanência ajuda a tornar sua linguagem mais compreensível. Seu trabalho não parece partir da necessidade de inventar uma personagem a cada temporada, mas de construir objetos que possam permanecer ao redor de alguém.

Sua estreia no calendário oficial aconteceu em 11 de setembro.

O que merece ser observado daqui em diante é se essa discrição consegue crescer sem perder precisão.

Terrence Zhou não quer desaparecer dentro da roupa

Se Jamie Haller trabalha com contenção, Terrence Zhou parece interessado no movimento oposto.

Bad Binch TongTong foi fundada em 2021 e construiu reconhecimento com silhuetas experimentais que aproximam moda, performance e teatralidade. Zhou nasceu em Wuhan, na China, e sua linguagem dificilmente poderia ser confundida com a ideia de básicos elevados que dominou parte do mercado nos últimos anos.

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Quando precisou definir sua própria marca em uma palavra para o CFDA, escolheu “viral”.

É uma resposta quase provocativa porque reconhece algo que muitos designers prefeririam tratar com distância: hoje, circulação também faz parte da construção de uma marca.

Uma silhueta pode ser tecnicamente interessante e, ao mesmo tempo, possuir capacidade imediata de viajar pela internet. Uma peça pode existir no corpo e na tela. O problema começa quando a segunda função destrói a primeira.

Zhou parece explorar deliberadamente essa tensão.

A marca já conquistou visibilidade vestindo nomes como SZA, Lizzo, Kim Kardashian e Karlie Kloss. Em fevereiro, Zhou também recebeu o CFDA | Genesis House AAPI Design + Innovation Grant de 2026. Agora, como finalista do Fashion Fund, Bad Binch TongTong entrou pela primeira vez no calendário oficial da NYFW, com desfile realizado em 10 de setembro.

É provavelmente o nome deste grupo que demonstra com maior clareza como a imagem contemporânea pode ser construída para interromper o fluxo.

A questão futura será descobrir quanto existe depois da interrupção.

Porque viralidade pode abrir a porta. Identidade é o que determina se alguém permanece.

Milamore transforma imperfeição em linguagem

Milamore chega por outro caminho.

A marca de joias finas fundada por George Inaki em 2019 trabalha entre Nova York e Japão e encontra parte importante de seu vocabulário no kintsugi, prática japonesa de reparar cerâmica quebrada destacando suas fissuras em vez de escondê-las. A ideia de algo “reparado, não quebrado” aparece nas formas orgânicas da joalheria e se relaciona também ao wabi-sabi, com sua atenção à imperfeição e à passagem do tempo.

Inaki nasceu nas Filipinas e cresceu no Japão. Ao se apresentar ao CFDA, definiu Milamore como “handcrafted” e citou Elsa Peretti como sua maior referência na moda.

Essas duas informações dizem bastante.

Peretti compreendeu como poucos designers de joias que uma peça pequena pode possuir uma assinatura visual enorme. Seu trabalho não precisava de excesso para ser reconhecido. Forma, contato com o corpo e material eram suficientes.

Milamore parece pertencer a uma geração que volta a encontrar valor nesse tipo de especificidade.

Em um momento no qual tantas marcas conseguem construir rapidamente uma estética coerente para Instagram, possuir uma filosofia visual não é suficiente. É preciso transformar essa ideia em objeto.

Milamore entrou no calendário oficial da NYFW em 11 de setembro.

A estreia também amplia uma pergunta interessante sobre aquilo que entendemos por Fashion Week. A semana não precisa ser observada apenas através de vestidos, casacos e passarelas. Joalheria, acessórios e objetos capazes de construir identidade também participam dessa conversa.

Conner Ives chega a Nova York sem ser exatamente um estreante

Conner Ives ocupa uma posição diferente dos outros três.

Ele nasceu em Nova York, formou-se na Central Saint Martins e vinha apresentando sua marca no calendário da London Fashion Week desde 2022. Nesta temporada, troca Londres por Nova York e realiza sua primeira apresentação no calendário oficial da CFDA em 12 de setembro.

É uma estreia que funciona também como retorno.

Seu trabalho já havia conquistado reconhecimento por uma combinação particular de nostalgia americana, vestidos de seda, camisetas gráficas e uso de peças vintage e materiais deadstock. Mais recentemente, sua camiseta “Protect the Dolls” transformou-se em uma das imagens mais reconhecíveis de sua marca.

Esse tipo de sucesso apresenta uma oportunidade e um risco.

Uma peça extremamente reconhecível pode colocar um designer diante de milhões de pessoas que talvez nunca tivessem encontrado seu trabalho. Ao mesmo tempo, pode reduzir uma prática muito maior a um único objeto.

Por isso sua chegada ao calendário nova-iorquino merece atenção.

O interesse agora não está em descobrir se Conner Ives consegue produzir outra camiseta viral. Está em observar como ele traduz a atenção acumulada em uma identidade de moda suficientemente ampla para continuar evoluindo.

Descoberta não significa previsão

Existe uma tentação recorrente quando se escreve sobre novos talentos: tentar prever quem será “o próximo” grande designer.

É uma maneira pouco interessante de olhar para criação.

A história da moda está cheia de marcas que receberam enorme atenção inicial e desapareceram poucos anos depois. Também está cheia de designers que construíram relevância lentamente, sem um momento único capaz de explicar seu crescimento.

O próprio CFDA/Vogue Fashion Fund existe desde 2003 como instrumento de apoio e mentoria para novas gerações da moda americana. Ao longo de sua história, passaram pelo programa nomes como Proenza Schouler, Altuzarra, Bode, Christopher John Rogers, Telfar, Thom Browne e Sandy Liang. Segundo o CFDA, cerca de 200 designers já receberam mentoria e mais de US$ 8 milhões foram distribuídos pelo programa.

Isso não transforma a seleção em garantia de sucesso.

Transforma-a em sinal.

Os dez finalistas de 2026 ainda disputam o prêmio principal de US$ 300 mil, enquanto dois vice-campeões receberão US$ 100 mil cada. O resultado será anunciado em 20 de outubro. Antes disso, o grupo seguirá para Paris, onde participará do Americans in Paris durante a Paris Fashion Week, nos dias 3 e 4 de outubro, diante de compradores, editores e profissionais internacionais.

É aí que a descoberta começa a ficar mais séria.

Não quando uma marca aparece pela primeira vez em nosso feed, mas quando conseguimos reconhecer nela alguma coisa que permanece depois da primeira imagem.

Jamie Haller fala de conforto e material.

Terrence Zhou trabalha impacto e teatralidade.

George Inaki transforma imperfeição em joalheria.

Conner Ives reorganiza referências americanas através de uma formação construída em Londres.

São linguagens bastante diferentes — e isso talvez seja o mais interessante.

A próxima geração da moda não precisa compartilhar uma estética.

Precisa ter algo próprio para dizer.

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