13/09/2026
Em qualquer plataforma digital, essa duração parece quase uma provocação. É tempo suficiente para assistir a vários filmes, atravessar dezenas de episódios curtos ou consumir uma quantidade praticamente incontável de vídeos produzidos para desaparecer da memória poucos segundos depois.
Luca Guadagnino escolheu pedir exatamente esse tempo.
Em 2026, o diretor italiano voltou ao Festival Internacional de Cinema de Veneza com Joie de vivre, documentário de 435 minutos apresentado fora de competição. O filme acompanha o estilista e empresário italiano Brunello Cucinelli e amplia uma relação de Guadagnino com o festival que já atravessa diferentes momentos de sua carreira. Nesta edição, ele também recebeu o Cartier Glory to the Filmmaker Award, reconhecimento destinado a uma personalidade que tenha contribuído de maneira particularmente original para o cinema contemporâneo.
O prêmio seria suficiente para produzir uma notícia.
A duração do filme oferece uma conversa mais interessante.
Porque Joie de vivre aparece em um momento no qual nossa relação com imagens está sendo reorganizada não apenas pelo que assistimos, mas pela quantidade de tempo que estamos dispostos a conceder a cada coisa.
Sua filmografia sempre demonstrou atenção particular à experiência sensorial. Espaços, arquitetura, objetos, roupas, comida, música e corpos raramente funcionam apenas como decoração em seus filmes. Existe uma insistência em observar como pessoas habitam ambientes e como desejo, memória e identidade podem aparecer em gestos aparentemente pequenos.
Isso exige olhar.
E olhar exige tempo.
A escolha de Brunello Cucinelli também modifica a natureza do projeto.
Cucinelli construiu sua empresa na Úmbria, tendo Solomeo como centro simbólico e operacional de uma filosofia empresarial que associa produção, território, trabalho artesanal e uma ideia própria de “capitalismo humanista”. A narrativa em torno de sua marca nunca se limitou ao produto: arquitetura, restauração, paisagem, comunidade e cultura fazem parte da imagem construída pelo empresário.
Guadagnino não escolhe, portanto, apenas um designer de moda.
Escolhe alguém que transformou uma visão de mundo em parte inseparável da identidade de uma empresa.
E isso abre uma questão particularmente contemporânea.
Até onde é possível separar aquilo que uma marca produz da cultura que ela constrói ao redor de si?
Hoje, empresas de moda não vendem somente roupas. Criam restaurantes, hotéis, exposições, fundações, livros, residências artísticas e projetos arquitetônicos. Financiam restaurações, aproximam-se do cinema e ocupam instituições culturais.
Mas o imaginário ao redor dele tornou-se quase tão importante quanto o próprio objeto.
É nesse território que um documentário sobre Cucinelli dirigido por Guadagnino pode ser observado com mais interesse.
Não como uma extensão automática do discurso de uma marca, mas como um encontro entre dois autores extremamente conscientes da força da imagem.
Existe uma palavra que frequentemente aparece quando se fala sobre o cinema de Luca Guadagnino: beleza.
É compreensível.
Seus filmes possuem uma atenção visual muito particular. Uma casa pode dizer alguma coisa sobre quem vive nela antes que qualquer personagem fale. Um tecido, uma piscina, um prato sobre uma mesa ou a maneira como a luz atravessa um ambiente podem carregar informação narrativa.
Mas reduzir esse cinema a “filmes bonitos” seria perder justamente aquilo que torna sua estética interessante.
Superfície também comunica.
A maneira como alguém se veste comunica.
A arquitetura escolhida para uma vida comunica.
Os objetos que uma pessoa conserva comunicam.
E aquilo que decidimos mostrar sobre nós mesmos quase nunca é completamente acidental.
Guadagnino parece entender muito bem essa relação entre imagem e identidade.
Talvez por isso sua aproximação com moda tenha se tornado tão recorrente ao longo da carreira. O diretor já transitou entre cinema, publicidade e projetos ligados a grandes casas, sem tratar necessariamente essas linguagens como territórios completamente isolados.
Em Joie de vivre, essa proximidade exige também atenção crítica de quem assiste.
Quando uma personalidade empresarial controla cuidadosamente sua própria narrativa pública, qualquer retrato documental precisa lidar com uma pergunta inevitável: estamos conhecendo a pessoa ou conhecendo a imagem que ela decidiu construir?
A resposta provavelmente nunca é absoluta.
E talvez seja justamente isso que torne o retrato interessante.
Existe também uma armadilha nessa discussão.
Longo não significa profundo.
Um filme não se torna importante simplesmente porque exige resistência do espectador. Assim como um vídeo de quinze segundos não é necessariamente superficial.
Duração é ferramenta.
O que importa é aquilo que um autor consegue fazer dentro dela.
Essa distinção é necessária porque existe uma tendência cultural de transformar lentidão em virtude automática. Um restaurante é melhor porque o jantar dura quatro horas. Um produto é mais sofisticado porque levou meses para ser feito. Um filme seria mais sério porque é longo.
Não funciona assim.
Tempo só adquire valor quando existe alguma coisa para observar dentro dele.
O gesto de Guadagnino é interessante não porque sete horas sejam superiores a noventa minutos, mas porque recusa a ideia de que toda experiência precisa ser comprimida para permanecer competitiva.
É uma diferença importante.
Talvez tenhamos aprendido a confundir facilidade de acesso com disponibilidade de atenção.
Podemos assistir praticamente a qualquer coisa.
Isso não significa que conseguimos realmente assistir a tudo.
O resultado é um paradoxo: uma biblioteca cultural gigantesca acompanhada por uma sensação permanente de atraso.
Ainda não vimos aquela série.
Ainda não ouvimos aquele álbum.
Ainda não terminamos aquele livro.
Existe sempre alguma coisa nova esperando.
A cultura começa então a adquirir o ritmo de uma lista de tarefas.
Nesse cenário, permanecer diante de uma obra por horas pode parecer quase improdutivo.
Mas cultura nunca precisou justificar seu valor por produtividade.
Um filme pode ocupar uma tarde inteira.
Um livro pode exigir semanas.
Uma exposição pode pedir que alguém permaneça dez minutos diante da mesma obra.
Uma música pode merecer ser ouvida novamente.
Nada disso produz necessariamente uma recompensa mensurável.
Ainda assim, alguma coisa acontece.
Há outro detalhe importante em Joie de vivre: sua apresentação acontece em um festival de cinema.
Não apenas porque Veneza oferece prestígio internacional, mas porque festivais ainda preservam uma experiência que o consumo doméstico tornou menos comum.
Existe horário.
Existe sala.
Existe começo.
Existe fim.
E existe uma audiência que, durante determinado período, concorda em compartilhar atenção.
Naturalmente, pessoas podem se distrair até dentro de um cinema. Mas a arquitetura da sala ainda foi construída para uma atividade muito específica: olhar para uma única direção.
Talvez por isso um filme de 435 minutos apresentado nesse ambiente tenha um significado diferente de simplesmente disponibilizar sete horas de conteúdo em uma plataforma.
A duração passa a fazer parte do ritual.
É quase impossível não perceber o próprio tempo enquanto ele acontece.
O Cartier Glory to the Filmmaker Award reconhece em Guadagnino uma contribuição original ao cinema contemporâneo. Sua relação com Veneza inclui filmes como I Am Love, A Bigger Splash, Suspiria, Bones and All, Queer e outros trabalhos apresentados ou ligados ao circuito dos grandes festivais ao longo dos anos.
Mas talvez uma das características mais reconhecíveis de sua obra não esteja em uma determinada estética.
Está na disposição de observar.
Pessoas.
Desejo.
Casas.
Roupas.
Corpos.
Objetos.
Silêncios.
Joie de vivre leva essa disposição a uma escala incomum.
Não sabemos se sete horas serão necessárias para todos os espectadores. Essa discussão pertence à experiência do próprio filme.
Culturalmente, porém, sua existência já produz uma pergunta interessante.
Quanto tempo estamos dispostos a entregar a alguma coisa antes de exigir que ela nos recompense?
Estamos acostumados a perguntar se um conteúdo merece nossa atenção.
Talvez exista outra pergunta igualmente importante:
o que acontece com nossa capacidade de perceber quando nunca permanecemos tempo suficiente?
Guadagnino não parece interessado em competir com a velocidade.
Em Veneza, escolheu fazer exatamente o contrário.
Pediu que o mundo permanecesse sentado.
Por sete horas e quinze minutos.