10/09/2026
Quem são as brasileiras que ampliam sua presença internacional em negócios, tecnologia, ciência, clima, arquitetura e economia criativa.
Da liderança de negócios globais à ciência climática, tecnologia e criação, mulheres brasileiras avançam para posições em que já não representam apenas o país: decidem, comandam recursos e influenciam mercados.
Durante décadas, a presença da mulher brasileira no imaginário internacional foi desproporcionalmente associada à aparência, à sensualidade e a uma versão turística do país. Enquanto profissionais brasileiras já ocupavam universidades, empresas, laboratórios e escritórios fora do Brasil, a narrativa pública demorava a acompanhá-las. Essa distância está diminuindo. O que ganha visibilidade agora não é apenas uma brasileira no exterior, mas mulheres brasileiras chegando a lugares onde decisões globais são tomadas.
A diferença é essencial. Presença internacional não significa morar em Nova York, Londres ou Paris, nem acumular carimbos no passaporte. Significa participar da distribuição de capital, comandar operações multinacionais, conduzir pesquisa capaz de orientar políticas públicas, desenvolver propriedade intelectual e interferir na maneira como empresas, governos e instituições enxergam um problema.
Os números brasileiros ainda revelam uma estrutura longe da igualdade. O Panorama Mulheres 2025, realizado pelo Instituto Talenses Group em parceria com o Insper, mostrou mulheres em 17% das presidências, 20% das vice-presidências, 30% das diretorias e somente 17% dos assentos em conselhos de administração nas 310 empresas pesquisadas. Ao mesmo tempo, outro levantamento citado pelo Confea em 2026 apontou que mulheres ocupavam 36,7% das posições de liderança empresarial no Brasil, acima da média global de 34%. O avanço existe; a concentração do poder no topo também.
É justamente nesse topo que algumas trajetórias brasileiras começam a adquirir outra escala.

Juliana Azevedo oferece um dos exemplos mais claros dessa mudança. Nascida em São Paulo, formada em Engenharia Industrial pela Escola Politécnica da USP e em Direito pela PUC-SP, entrou na Procter & Gamble como estagiária em 1996. Trinta anos depois, em 2026, tornou-se CEO global de Grooming da companhia, passando a liderar um negócio de aproximadamente US$ 7 bilhões anuais que inclui Gillette, Venus, Braun e King C. Gillette e alcança mais de 800 milhões de consumidores. A própria P&G registra que ela havia sido anteriormente a primeira mulher a comandar os negócios da empresa na América Latina.
A trajetória importa porque desmonta uma leitura simplista sobre internacionalização. Azevedo não precisou abandonar a formação brasileira para adquirir escala global. Sua carreira passou pela liderança do Brasil, pela América Latina, por categorias internacionais e, finalmente, pelo comando de um dos negócios globais mais conhecidos da multinacional.
Na tecnologia, Adriana Aroulho representa outra dimensão desse movimento. Depois de mais de duas décadas na HP e HPE, ingressou na SAP em 2017, assumiu a presidência da operação brasileira e, em abril de 2025, passou ao comando da SAP para América Latina e Caribe. É uma função regional em uma das companhias de software empresarial mais importantes do mundo e coloca uma executiva formada profissionalmente no mercado brasileiro diante de decisões que atravessam diferentes economias, culturas empresariais e níveis de maturidade digital.
Não existe uma qualidade mística de “liderança brasileira” capaz de explicar esses percursos. Existe experiência. Executivas que fizeram carreira em um país de mudanças cambiais, instabilidade econômica, desigualdade, mercados regionais radicalmente diferentes e consumidores altamente adaptáveis desenvolveram repertório para lidar com complexidade. Quando essa competência encontra formação técnica, resultado e capacidade política, torna-se exportável.
A circulação global das brasileiras se torna ainda mais relevante quando sai do ambiente empresarial e entra na produção de conhecimento.

Em 2025, um levantamento da Agência Bori com a plataforma internacional Overton identificou pesquisadores brasileiros cujos trabalhos aparecem de forma recorrente em documentos usados por governos, organizações internacionais e entidades da sociedade civil. Entre os nomes destacados pelo Cemaden está Liana Anderson, pesquisadora ligada à gestão de riscos, incêndios florestais e extremos climáticos. Ana Paula Cunha, também do Cemaden, apareceu entre os 50 cientistas brasileiros mais mencionados em documentos relacionados ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 13 da ONU, dedicado à ação climática.
Essa é uma medida de influência muito mais interessante do que celebridade científica. Uma pesquisa ganha dimensão internacional quando deixa de circular apenas entre pesquisadores e passa a informar políticas, relatórios técnicos e decisões institucionais.
O Brasil tornou essa contradição especialmente visível. Em março de 2026, a Kalshi anunciou com a XP International sua primeira parceria estratégica com um grupo financeiro fora dos Estados Unidos. Pouco depois, autoridades brasileiras determinaram o bloqueio da plataforma em meio à discussão sobre mercados de previsão e apostas esportivas. Luana respondeu insistindo que o modelo econômico da Kalshi é diferente do de uma bet tradicional e disse que buscaria diálogo com o governo. Não recuou da ambição: declarou acreditar que os mercados de previsão podem, no futuro, superar o próprio mercado de ações.
Márcia Barbosa ocupa outro lugar emblemático. Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, integrante da Academia Brasileira de Ciências e da The World Academy of Sciences, construiu reconhecimento internacional por seus estudos sobre as propriedades da água e também pela atuação em questões de gênero na ciência. Sua trajetória reúne produção científica, instituições internacionais e participação ativa na estrutura que determina quem produz conhecimento e quem consegue permanecer dentro dela.

Para um país como o Brasil, ciência climática também é geopolítica. Amazônia, água, biodiversidade, agricultura e transição energética transformam pesquisadores brasileiros em interlocutores necessários em discussões que ultrapassam qualquer fronteira nacional. A autoridade internacional nasce, nesse caso, de conhecer profundamente aquilo que o mundo precisa compreender.
Existe ainda outro deslocamento menos mensurável, mas culturalmente decisivo. Durante muito tempo, o Brasil foi exportado como inspiração: natureza, corpos, cores, música, materiais, imagens. O crédito intelectual nem sempre circulava na mesma velocidade.
A atenção internacional renovada sobre a estética brasileira em 2026 mostrou como símbolos do país voltaram ao circuito global da moda. O chamado Brazilcore colocou futebol, Havaianas, cores nacionais e referências populares novamente em evidência, inclusive diante de grandes marcas estrangeiras. A questão mais sofisticada, porém, não está na tendência. Está em quem controla a narrativa, assina o design e captura economicamente o valor criado por essa cultura.
Para as mulheres brasileiras da arquitetura, do design, da moda e das artes, internacionalizar deixou de significar suavizar a origem para se adaptar ao gosto estrangeiro. O movimento mais consistente ocorre quando repertório brasileiro e linguagem própria entram no exterior como autoria.
A arquiteta Fernanda Marques, por exemplo, construiu uma carreira com projetos realizados também em mercados como Nova York, Miami, Londres e Lisboa, levando consigo uma formação diretamente ligada à tradição arquitetônica brasileira. Seu trabalho exemplifica algo que interessa muito mais do que uma estética “tropical” facilmente reconhecível: a possibilidade de conhecimento desenvolvido no Brasil atuar em projetos internacionais de alto padrão sem perder sua genealogia cultural.
Existe uma antiga fantasia profissional segundo a qual tornar-se global exigiria neutralizar origem, sotaque e códigos culturais. Para muitas mulheres, isso significava ainda adotar formas de autoridade construídas historicamente por homens.
Competência internacional exige domínio técnico, leitura cultural e capacidade de circular entre ambientes distintos. Não exige descaracterização. A brasileira que comanda uma área global de uma multinacional, influencia decisões climáticas ou desenvolve projetos fora do país não é relevante apesar de ter vindo do Brasil. Parte do valor de sua trajetória foi construída precisamente no repertório acumulado aqui.
Também é importante retirar essa discussão do território confortável da celebração feminina. Mulheres não chegam a posições internacionais porque o mercado resolveu premiar diversidade. Chegam quando combinam resultado, conhecimento, rede, reputação, ambição e capacidade de permanecer em estruturas que continuam seletivas. Os dados de participação nos conselhos e presidências deixam isso evidente.
É por isso que histórias como as de Juliana Azevedo, Adriana Aroulho, Liana Anderson e Márcia Barbosa importam. Elas não precisam ser convertidas em personagens de uma narrativa genérica de “empoderamento”. O que fizeram é mais concreto: conquistaram jurisdição sobre decisões.
Esse é o ponto em que a presença feminina muda de escala.
O Brasil já exportou beleza, matéria-prima, talento e mão de obra. A etapa mais interessante começa quando passa a exportar também mulheres que comandam negócios, produzem conhecimento, definem estratégias e assinam ideias.
A fronteira verdadeiramente rompida não é geográfica. É a que separa ser vista de ter poder para decidir.