13/09/2026
Algumas marcas de moda enfrentam um problema que só aparece depois do sucesso: o que fazer quando uma criação se torna tão reconhecível que começa a ocupar mais espaço do que a própria marca?
Para Diane von Furstenberg, essa criação é o vestido envelope. Poucas peças estabeleceram uma associação tão imediata entre uma mulher, uma grife e uma determinada ideia de feminilidade. O desafio, décadas depois, não está em provar sua importância. Está em descobrir o que fazer com esse patrimônio sem viver permanentemente dele.
A coleção Primavera/Verão 2027 da DVF chega justamente nesse ponto. Apresentada durante a New York Fashion Week, ela marca a estreia de Henry Zankov como diretor artístico e o retorno da marca à passarela. A própria casa definiu o momento como uma releitura de seus códigos de arquivo por meio de um guarda-roupa baseado em facilidade, liberdade e sedução.
A escolha de Zankov é especialmente interessante porque ele não chega à DVF como alguém encarregado de conhecer uma história desconhecida.
O designer russo-americano trabalhou na equipe da marca entre 2014 e 2019, antes de criar sua própria etiqueta, ZANKOV, em 2020. Em 2024, recebeu do CFDA o prêmio de American Emerging Designer of the Year. Em maio de 2026, voltou à casa como diretor artístico. Existe, portanto, uma relação anterior com o vocabulário que agora precisa reinterpretar.
Zankov não precisa começar perguntando o que é DVF. Sua questão parece ser outra: quanto dessa identidade pode ser preservado enquanto a mulher que veste a marca continua mudando?
A resposta começa pelo corpo.
Diane von Furstenberg costumava dizer a Zankov que tudo estava relacionado à “body language”. Ao apresentar a nova coleção, o designer recuperou essa ideia para explicar seu interesse pela maneira como as roupas se movem, revelam e comunicam. É uma chave particularmente adequada para uma marca cuja peça mais famosa nunca dependeu de uma construção rígida para produzir presença.
O vestido envelope tornou-se poderoso justamente porque sua engenharia é relativamente simples: envolver, ajustar, acompanhar. Há feminilidade, mas também autonomia na maneira como a peça se relaciona com diferentes corpos. É um tipo de design no qual funcionalidade e sensualidade conseguem existir ao mesmo tempo.
As silhuetas se alongam. Jersey, chiffon, seda cortada no viés e alfaiataria aparecem em combinações construídas para permitir movimento. Blocos de cor convivem com estampas, enquanto diferentes peças podem ser misturadas sem perder a continuidade visual. A descrição oficial da coleção fala de uma mulher instintiva, confiante e em movimento — e as roupas realmente parecem organizadas ao redor dessa ideia.
Há também algo bastante específico na maneira como Zankov utiliza cor e textura.
Antes de assumir a direção artística, ele já havia colaborado com a DVF, aproximando as estampas e silhuetas históricas da casa de sua própria linguagem gráfica. Nessas experiências, seda e cetim encontraram tricôs táteis, paetês e combinações cromáticas menos previsíveis. A colaboração acabou funcionando quase como um laboratório para a relação que agora se torna permanente.
Na nova coleção, essa assinatura ganha escala.
Surgem ternos coloridos, vestidos de jersey próximos ao corpo, estampas animais recuperadas do arquivo, listras gráficas, tricôs de trama aberta e combinações deliberadamente menos comportadas. Há referências à energia dos anos 1970 e à noite nova-iorquina, mas elas não aparecem como figurino de época.
Essa diferença importa.
O arquivo pode ser uma das maiores vantagens competitivas de uma casa de moda e, ao mesmo tempo, tornar-se uma armadilha. Quanto mais reconhecíveis seus códigos, maior a tentação de simplesmente reproduzi-los. A repetição oferece segurança comercial e reconhecimento imediato, mas também pode transformar identidade em fórmula.
No caso da DVF, isso exige cuidado adicional porque a história da casa está intimamente ligada à personalidade de sua fundadora. Cor, estampa, vestidos femininos, independência e confiança não são elementos adicionados posteriormente por uma equipe de marketing; fazem parte da maneira como Diane von Furstenberg construiu sua presença pública e seu produto.
A própria marca ainda organiza sua identidade em torno de três elementos centrais: cor e estampa, atitude e silhueta. O vestido permanece como peça fundamental, enquanto confiança e independência continuam definindo a mulher que a casa pretende vestir.
A tarefa de Zankov, portanto, não é inventar artificialmente uma nova personagem.
É atualizar sua linguagem.
Talvez esse seja o aspecto mais convincente de sua estreia. A mulher DVF continua feminina, mas sua feminilidade não parece excessivamente administrada. Ela mistura. Mostra o corpo. Sobrepõe texturas. Usa cor. Permite que estampas disputem espaço. Há uma certa irreverência nessa construção que impede a coleção de parecer excessivamente reverente ao arquivo.
É uma decisão inteligente para uma casa com tanta história.
Durante alguns anos, grande parte da moda de luxo privilegiou uma imagem extremamente controlada: paletas reduzidas, superfícies discretas, roupas cuja sofisticação dependia da capacidade de parecer silenciosa. A DVF nunca pertenceu completamente a esse território. Sua história foi construída com estampas reconhecíveis, vestidos que acompanham o corpo e uma relação assumida com sensualidade.
Tentar neutralizar tudo isso para parecer contemporânea seria provavelmente mais artificial do que revisitar seus próprios excessos.
Zankov faz o contrário.
Ele aceita que cor faz parte da casa. Aceita que sedução faz parte da casa. Aceita que uma mulher pode querer que sua roupa seja percebida.
Mas muda a maneira como essas características aparecem.
É aí que o trabalho de direção criativa começa a ficar interessante. Uma marca histórica não precisa escolher entre repetir exatamente aquilo que funcionou e destruir seus códigos para provar que entrou em uma nova fase. Existe um território mais difícil entre essas duas possibilidades: reconhecer o que merece permanecer e editar aquilo que precisa avançar.
Na DVF, o vestido envelope continuará existindo. Seria estranho imaginar o contrário. Mas uma casa relevante não pode depender eternamente de uma única peça, por mais importante que ela seja.
A Primavera/Verão 2027 sugere que Henry Zankov sabe disso.
Sua estreia não tenta substituir Diane von Furstenberg dentro da própria história. Também não trata essa história como uma vitrine intocável. Ele mexe nas proporções, aproxima o arquivo de sua linguagem gráfica, deixa as combinações mais instintivas e devolve movimento a códigos que poderiam facilmente se transformar em símbolos estáticos.
No fundo, talvez seja exatamente isso que uma boa sucessão criativa deva fazer.
Não perguntar como fazer o passado parecer novo.
Perguntar o que, naquele passado, ainda tem alguma coisa a dizer.