Ryan de Alcântara: aos 5 anos, uma estreia na moda no tempo da própria infância

Entre fotografias, passarelas e descobertas, Ryan começa a experimentar o universo da moda com uma condição estabelecida pela mãe: nenhuma oportunidade deve ser maior do que o direito de ele continuar sendo criança.

Antes de existir qualquer plano de carreira, havia uma criança que gostava de tirar fotos em casa. Ryan de Alcântara Farias posava diante do espelho, dançava e se divertia com a câmera. Aos 5 anos, esse gesto ainda conserva exatamente o que deveria conservar: a espontaneidade de uma brincadeira. Foi observando esse interesse que sua mãe começou a procurar atividades ligadas a fotografia e passarela.

Ryan nasceu no Rio de Janeiro e vive em Salvador desde os cinco meses de idade. Nas redes sociais, aparece como @ryan_dealcantara, mas a mãe faz uma distinção importante ao falar sobre sua presença digital: ela não o define prioritariamente como influenciador. O interesse da família, neste momento, está mais concentrado no desenvolvimento de Ryan como modelo infantil, entre ensaios, desfiles e experiências que ele demonstre vontade de viver.

Essa diferença de palavras diz bastante sobre a história. Existe uma indústria ao redor da imagem infantil, com seus castings, marcas, agências e redes sociais. Mas existe, antes dela, uma criança formando gostos, recusas e desejos. Segundo a mãe, Ryan tem personalidade forte e deixa claro aquilo de que gosta e aquilo que não quer. Se rejeita um calçado, por exemplo, insistir não costuma mudar sua decisão.

É justamente essa capacidade de dizer “sim” e “não” que orienta a forma como a família vem conduzindo seus primeiros passos profissionais.

O interesse veio antes da carreira

A entrada de Ryan nesse universo não aconteceu de maneira linear. Sua mãe conta que procurava uma atividade extracurricular que pudesse interessá-lo quando identificou nas passarelas e nas fotografias uma possibilidade compatível com algo que ele já fazia por prazer.

A primeira tentativa, porém, trouxe frustração. Depois de uma seletiva em uma agência, vieram elogios, a proposta de produzir um book e, posteriormente, a percepção da família de que as oportunidades prometidas não estavam acontecendo. A experiência poderia ter encerrado ali a aproximação com o mercado. Ryan, no entanto, continuava perguntando quando voltaria a fazer fotos.

A mãe decidiu procurar outro caminho.

Foi assim que encontrou uma agência. Ryan participou de uma nova seletiva, passou por entrevista e teste fotográfico e foi aprovado. Segundo o relato materno, ele está na agência há cerca de três meses. A lembrança da aprovação permanece muito concreta: quando recebeu a mensagem, ela estava próxima ao trabalho de uma prima e foi até lá contar a notícia. Ryan sorriu ao saber que havia sido escolhido.

O que poderia parecer um detalhe é, na verdade, um bom critério para compreender essa trajetória. A continuidade não aconteceu porque os adultos decidiram que Ryan deveria ser modelo. Ela aconteceu depois que ele demonstrou querer voltar.

Um primeiro desfile e o prazer de se reconhecer na roupa

Outra experiência ajudou a transformar a curiosidade em algo mais palpável. Por indicação de uma mãe que a família conheceu na agência, Ryan chegou ao contato da responsável pelos fashionistas de Salvador, que buscava novos rostos para um desfile de outono/inverno de 2026.

Ele foi inscrito e desfilou.

A mãe conta que Ryan se divertiu e, depois, disse que tinha gostado muito da experiência e queria desfilar novamente. Para aquele trabalho, uma loja infantil parceira enviou um look com bermuda e camisa do Roblox. A escolha teve um efeito imediato: Ryan gosta do personagem e ficou particularmente animado ao perceber o que usaria na passarela.

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É uma cena pequena, mas reveladora. Aos cinco anos, o sentido de um desfile não precisa estar em compreender a dimensão profissional daquele evento. Pode estar simplesmente no prazer de vestir algo de que gosta, entrar na passarela e descobrir que quer fazer aquilo outra vez.

Para sua mãe, uma das maiores conquistas até agora não é um trabalho específico. É acompanhar o crescimento da confiança do filho a cada desfile e sessão de fotos.

O diagnóstico não entra antes do nome

Há outra dimensão importante na maneira como essa história é conduzida dentro da família. Ryan é autista. A mãe, porém, não deseja que o diagnóstico determine antecipadamente como ele será percebido por quem o encontra.

Na entrevista concedida à VOLPH, ela explica que prefere que as pessoas conheçam primeiro a criança, observem seu comportamento e avaliem seu trabalho sem transformar a condição neurológica em um limite presumido. Sua preocupação é que Ryan tenha acesso às mesmas oportunidades oferecidas a outras crianças de sua idade.

A escolha exige precisão. O autismo faz parte da vida de Ryan, mas não oferece sozinho uma explicação para quem ele é, para aquilo de que gosta ou para o que poderá fazer. Tampouco deveria ser convertido em recurso narrativo para tornar sua história artificialmente mais emocionante.

Sua mãe relata que procura respeitar seus limites e seu tempo. Antes de confirmar uma participação, conversa com ele e pergunta se deseja ir. Também tenta filtrar a pressão que pode surgir com exposição e opiniões externas. A preocupação não é eliminar toda dificuldade, mas evitar que uma atividade que hoje lhe dá prazer se transforme em obrigação.

“Não quero que ele viva essa experiência que antes era só um sonho meu e hoje é um sonho nosso, mas de uma forma bem leve e divertida para ele”, afirma.

A frase estabelece uma fronteira importante entre expectativa adulta e experiência infantil.

Quando a carreira precisa caber na infância

Existe uma palavra que se repete, ainda que de maneiras diferentes, nas respostas da mãe de Ryan: tempo.

Tempo para posar. Tempo para aprender. Tempo para aceitar ou recusar um convite. Tempo para crescer.

Quando questionada sobre onde imagina o filho nos próximos três anos, ela evita desenhar um destino fechado. Espera que Ryan continue encontrando oportunidades relacionadas à sua faixa etária, mas diz não querer criar expectativas excessivas. Cada convite será apresentado a ele, e a decisão de participar continuará levando em consideração sua vontade.

Essa postura também aparece quando fala sobre possíveis marcas parceiras. Para a família, fazem sentido empresas ligadas ao universo infantil, moda para crianças, brinquedos e produtos coerentes com sua idade. Há, entretanto, uma exigência anterior à estética ou à exposição: compreender que cada criança possui ritmo, personalidade e limites próprios.

No caso de Ryan, o conteúdo publicado nas redes acompanha essa lógica. A mãe costuma compartilhar registros de eventos, roupas recebidas em trabalhos ou parcerias e momentos espontâneos do filho. Ela reconhece que o perfil ainda precisa de maior organização e coerência editorial, mas prefere não forçar situações para produzir conteúdo.

Essa decisão preserva algo que pode facilmente desaparecer quando infância e imagem profissional começam a ocupar o mesmo espaço: a diferença entre registrar uma criança e dirigir permanentemente a sua existência para a câmera.

O que permanece fora do enquadramento

Uma fotografia pronta não mostra a preparação. Um desfile não revela necessariamente as conversas anteriores. Um vídeo curto tampouco registra todos os cuidados envolvidos para entender se aquela criança está confortável naquele dia.

A mãe de Ryan fala dos imprevistos, da correria, das orientações, dos “puxões de orelha” e, principalmente, da atenção constante ao ritmo do filho. O bastidor que ela descreve é menos glamouroso do que a imagem final e justamente por isso ajuda a compreender melhor o que está sendo construído.

Seu desejo profissional para Ryan é amplo: que ele cresça no mercado, trabalhe com marcas que admire e, eventualmente, possa ser conhecido também fora do país. Mas há uma ressalva que modifica completamente o peso dessa ambição. Ela quer que ele tenha liberdade para escolher o próprio caminho.

Ryan tem cinco anos. É cedo demais para saber até onde a moda fará parte de sua vida — e a própria família não tenta responder a essa pergunta agora.

Por enquanto, há fotos, uma agência, um primeiro desfile, novas possibilidades e um menino que continua dizendo quando gosta e quando não gosta.

Talvez o dado mais importante de sua estreia esteja exatamente aí: enquanto os adultos organizam castings, ensaios e compromissos, Ryan ainda conserva o direito de decidir se quer entrar em cena.

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