24/09/2026
Algumas histórias começam com uma oportunidade. Outras, com um sonho anunciado cedo demais. A de Catarina Alves Araújo começa de um jeito muito mais delicado: com uma menina de cinco anos percebendo que gostava do próprio cabelo. Foi essa a lembrança escolhida por sua mãe, em entrevista à VOLPH, quando falou sobre um momento importante na trajetória da filha. Não uma fotografia específica, não um trabalho, não a aprovação de alguém. Catarina simplesmente olhou para uma característica que era sua e a reconheceu como bonita. Há descobertas que parecem pequenas para quem observa de fora, mas que, dentro da infância, podem significar o começo de uma relação inteira consigo mesma.
Talvez por isso seja tão bonito encontrar Catarina agora, justamente quando sua história diante das câmeras ainda está começando. Em Pedreiras, no Maranhão, ela descobre o universo digital na mesma idade em que brincar continua sendo uma das coisas mais importantes do dia. Gosta de fotografias, observa as paisagens e tem prazer em criar as próprias poses. Existe uma câmera diante dela, mas ainda existe, sobretudo, uma criança por trás de cada imagem — curiosa o bastante para reparar no mundo, questionadora o bastante para querer entendê-lo e espontânea o bastante para não precisar transformar cada gesto em performance.
Sua mãe fala de uma menina tímida que, ainda assim, cativa as pessoas. Conta sobre a filha observadora, atenta aos detalhes e dona de um humor que aparece nas piadas, nas “trolagens” e nas caras e bocas que faz enquanto conversa. É nesse retrato contado por quem a conhece longe das lentes que Catarina ganha sua dimensão mais bonita. A fotografia registra o sorriso, o cabelo, a roupa e a pose escolhida; uma mãe, porém, conhece tudo aquilo que acontece um segundo antes e um segundo depois do clique. Conhece a menina que brinca, que pergunta, que faz graça, que se distrai, que observa alguma coisa ao longe e que volta a ser apenas Catarina quando ninguém está pedindo uma fotografia.
E talvez seja justamente essa Catarina que mereça permanecer no centro de tudo o que vier daqui para a frente. Quando a infância encontra as redes sociais, existe sempre o risco de começarmos a falar cedo demais sobre carreira, resultados e futuro. Mas Catarina ainda tem cinco anos. Seu presente não precisa ser transformado em promessa para que tenha valor. Há algo profundamente inspirador em permitir que uma criança descubra aquilo de que gosta sem obrigá-la a saber imediatamente o que fará com essa descoberta. Hoje ela gosta de tirar fotografias e inventar poses. Amanhã poderá gostar ainda mais, poderá encontrar outros interesses ou poderá surpreender todos ao escolher caminhos que ninguém imaginava. Crescer também é ter o direito de mudar.
Talvez seja por isso que uma das respostas mais simples dadas por sua mãe seja também uma das mais importantes de toda a entrevista. Ao falar sobre como preservar a autenticidade da filha, ela não apresentou uma estratégia para redes sociais nem uma fórmula para construir uma imagem pública. Disse apenas que isso acontece deixando Catarina ser “a criança que ela é”. A frase carrega uma responsabilidade enorme justamente porque parece tão óbvia. Em um tempo no qual crianças podem ser vistas por milhares de pessoas antes mesmo de compreenderem o tamanho dessa audiência, permitir que uma menina continue sendo criança é mais do que preservar espontaneidade; é lembrar que nenhuma oportunidade deveria exigir dela a perda daquilo que torna essa fase irrepetível.
A câmera, então, pode ocupar um lugar bonito. Pode guardar fases que desaparecerão depressa, registrar um cabelo que Catarina aprendeu a admirar, conservar as poses que ela mesma inventou e transformar pequenos instantes em lembranças para uma família que, alguns anos depois, talvez olhe essas fotografias tentando descobrir em que momento aquela menina cresceu tanto. Toda mãe conhece, de alguma maneira, essa sensação contraditória: desejar ver um filho avançar e, ao mesmo tempo, querer conservar um pouco da criança que parece mudar diante dos olhos.
É aí que a história de Catarina ultrapassa a fotografia e encontra outras famílias. Porque talvez muitas mães reconheçam nela alguma coisa de seus próprios filhos: o primeiro momento em que perceberam uma característica bonita em si mesmos, uma habilidade descoberta quase por acaso, uma brincadeira que começou a revelar personalidade ou aquele instante em que deixaram de precisar da mão da mãe para fazer algo que antes parecia impossível. A infância é construída por acontecimentos assim. Enquanto estão acontecendo, parecem cotidianos. Depois que passam, tornam-se preciosos.
Por isso, quando penso em Catarina diante de uma câmera, não penso primeiro na possibilidade de uma carreira. Penso na menina que ainda pode fazer uma pose e, segundos depois, desfazê-la para fazer uma careta. Penso na criança observadora que encontra interesse nas paisagens, na pequena brincalhona descrita pela mãe e naquela descoberta tão íntima de olhar para o próprio cabelo e considerá-lo bonito. Existe uma força especial em crescer aprendendo que aquilo que nos torna nós mesmos não precisa ser corrigido antes de ser amado.
Catarina está apenas começando, e talvez essa seja a parte mais emocionante de sua história. Não sabemos quais serão seus próximos sonhos — e não precisamos saber. Há tempo para que ela escolha, experimente, mude de ideia, descubra novos interesses e invente outras versões de si. O futuro não precisa chegar depressa para ser bonito. Por enquanto, basta que exista espaço para uma menina de cinco anos continuar brincando enquanto descobre o mundo e, pouco a pouco, descobre também a si mesma.
Um dia, essas fotografias pertencerão ao passado. Catarina será maior, seu rosto terá mudado e talvez algumas das roupas, poses e brincadeiras provoquem aquele sorriso inevitável de quem encontra a própria infância guardada em uma imagem. Sua mãe, porém, poderá enxergar algo que nenhuma fotografia consegue registrar por inteiro: a menina que existia ao redor daquele clique. Poderá lembrar da curiosidade, das piadas, das perguntas, das caras e bocas e da época em que a filha começava a experimentar o universo das câmeras sem imaginar tudo o que ainda teria pela frente.
E talvez, entre tantas lembranças, permaneça justamente aquela que parecia pequena demais para se tornar o início de uma história: Catarina descobrindo que tinha um cabelo lindo. Porque antes que qualquer pessoa pudesse dizer quem ela deveria ser, uma menina de cinco anos começava a aprender algo que esperamos que leve consigo enquanto cresce — olhar para si mesma com carinho.
Se as câmeras continuarem fazendo parte de seu caminho, que registrem suas conquistas. Se novos sonhos surgirem, que ela tenha liberdade para persegui-los. Mas que nenhuma imagem se torne maior do que a infância que existe por trás dela. Afinal, o mais bonito nessa história não é imaginar até onde Catarina poderá chegar. É saber que, enquanto começa a caminhar, existe uma família perto o suficiente para lembrá-la de que ela não precisa correr.
E, para uma mãe que um dia inevitavelmente sentirá saudade da menina de cinco anos, talvez esse seja o verdadeiro valor de todas essas fotografias: elas não conseguirão impedir Catarina de crescer, mas poderão guardar, para sempre, um pouco da criança que ela foi enquanto descobria a beleza de ser exatamente quem era.

Porque, se existe algo que vale preservar enquanto Catarina começa a descobrir o mundo diante das câmeras, não é uma imagem perfeita.
É a menina inteira que existe quando a câmera se apaga.