Criei do nada um império da moda que me deixou multimilionária, mas cresceu tanto que abri falência

Sophia Amoruso transformou a Nasty Gal em uma empresa avaliada em centenas de milhões de dólares. Mas, poucos anos depois, seus negócios naufragaram.

A fortuna de Sophia Amoruso, em certo momento, chegou a ser maior que a de Beyoncé. Mas, para chegar a este ponto, ela andou de carona, roubou livros e revirou latões de lixo em busca de comida.

Tudo o que ela enfrentou pode parecer uma história típica de ascensão e queda. Mas, como ela própria contou ao programa de rádio Business Daily, do Serviço Mundial da BBC, a única razão que a levou a criar a marca de roupas Nasty Gal foi que ela não queria trabalhar.

Ou, pelo menos, não trabalhar como parte do sistema com suas regras definidas, com um único caminho rumo ao progresso e cumprindo o horário das 9 da manhã às 5 da tarde.

E foi a marca de roupas que deixou Amoruso milionária.

A Nasty Gal chegou a ser a empresa varejista que mais cresceu nos Estados Unidos em 2012, com faturamento de mais de US$ 100 milhões (cerca de R$ 510 milhões, pelo câmbio atual), segundo a revista Inc.

“Quando era adolescente, eu não gostava nada do capitalismo”, ela conta. “Eu frequentava feiras de livros anarquistas. Não queria viver dentro do sistema.”

“Eu não tinha necessariamente a motivação para criar uma empresa. Mas, enquanto tentava fugir de trabalhar, acabei construindo algo que era realmente muito divertido.”

Em 2006, Amoruso estava sem dinheiro e sem rumo, conferindo crachás de identificação no saguão de entrada de uma escola de arte. Ela havia aceitado aquele trabalho para ter seguro médico e ser operada de uma hérnia.

Foi ali que ela decidiu começar a vender roupas vintage no eBay.

Seu primeiro contato com o setor de vendas pela internet havia ocorrido anos antes, revendendo livros pela Amazon.

“Eu procurava os títulos mais vendidos do jornal The New York Times, entrava em uma loja, empilhava vários que estavam na mesa de entrada, dava meia-volta e saía com os livros”, ela conta. “Não tenho muito orgulho disso.”

Sua segunda plataforma foi o eBay. Ali, Amoruso montou uma loja de roupas vintage com estilo inovador, que se encaixava com a cultura urbana.

Ela encontrava as roupas fazendo buscas entre pertences “de pessoas falecidas”.

Amoruso sabia que podia fazer as roupas descartadas parecerem atrevidas, utilizando suas atraentes amigas como modelos.

Ela logo começou a observar o que outras lojas vendiam, o que dava certo, o que inspirava estilistas e quais roupas eram apresentadas nas passarelas e vendidas por milhares de dólares.

“Eu sabia onde encontrar aquelas roupas muito mais barato e era criativa”, recorda ela.

Assim teve início a marca Nasty Gal, um nome tomado emprestado de um álbum da cantora Betty Davis (1945-2022).

Quando Amoruso quis migrar para um website, descobriu que o domínio havia sido anteriormente uma página de pornografia.

“No primeiro ano e meio, fiz tudo sozinha”, ela conta. “Tirava fotos, editava, colocava preços nas peças, escrevia a descrição, pesava, media, publicava…”

“Todos os leilões começavam em US$ 9,99 [R$ 51]. Aquilo valia US$ 10 se eu fizesse parecer incrível e colocasse em uma menina muito elegante, com atitude, que parecesse estar indo para algum lugar genial.”

Mulheres lutadoras

A imagem de originalidade da marca refletia a forma de pensar de Amoruso.

No seu livro #GIRLBOSS, publicado em 2014, ela explica sua filosofia para as mulheres. Uma #GIRLBOSS (“menina empoderada”, em tradução livre) é alguém que consegue o que quer porque trabalha para chegar lá.

“A #GIRLBOSS assume o controle e a responsabilidade”, escreve ela.

“Você é uma lutadora: sabe quando atacar e quando receber golpes. Às vezes, você desrespeita as normas e, às vezes, as segue, mas sempre nos seus próprios termos.”

“Você sabe aonde vai, mas não pode ir sem se divertir pelo caminho”, prossegue Amoruso. “Valoriza a honestidade, mais do que a perfeição. Faz perguntas. Você leva a vida a sério, mas não leva você mesma muito a sério.”

Sua clientela começou a ser fiel não apenas às roupas, mas à marca e aos visuais inventados por Amoruso.

Por trás dos negócios, havia uma comunidade seduzida por uma forma de fazer as coisas com a qual muitas mulheres se identificavam. Havia uma certa conexão emocional.

Tudo começou a decolar muito rapidamente.

“Até a atriz Anne Hathaway fazia compras comigo”, conta Amoruso. “E também jornalistas, escritores de moda.”

“Lancei o website e tudo foi vendido em 24 horas.”

“Fiquei rodeada de pacotes e sem nada na página web, até que me dei conta: Isso vai ser permanente”, prossegue ela. “Foi então que contratei meu primeiro funcionário.”

No primeiro ano, Amoruso ganhou cerca de US$ 75 mil (cerca de R$ 383 mil). No segundo ano, foram US$ 250 mil (R$ 1,3 milhão); no terceiro, US$ 1,1 milhão (R$ 5,6 milhões); e, no quarto, US$ 6,5 milhões (R$ 33 milhões).

No quinto ano, Amoruso atingiu a marca de US$ 30 milhões (cerca de R$ 153 milhões).

O incrível é que não havia nenhum investidor apoiando todo este crescimento — pelo menos inicialmente, até que a fama e o dinheiro começassem a bater à sua porta.

A época mais divertida

Sem pensar duas vezes, um fundo de capital de risco avaliou a Nasty Gal como uma empresa de tecnologia de US$ 350 milhões (cerca de R$ 1,8 bilhão).

Na época, o comércio digital estava no auge. Ela recebeu US$ 50 milhões (R$ 255 milhões) em troca de uma participação na empresa para financiar sua expansão.

Para Amoruso, foi ali que começaram a surgir os problemas.

“Por muito tempo, esta fase foi a mais divertida”, relembra ela.

“Fiz a empresa crescer até superar os US$ 100 milhões [R$ 510 milhões] de faturamento, contratei os melhores talentos e trabalhei com os melhores diretores de criação.”

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