21/09/2026
Antes de existir qualquer plano de carreira, havia uma criança que gostava de tirar fotos em casa. Ryan de Alcântara Farias posava diante do espelho, dançava e se divertia com a câmera. Aos 5 anos, esse gesto ainda conserva exatamente o que deveria conservar: a espontaneidade de uma brincadeira. Foi observando esse interesse que sua mãe começou a procurar atividades ligadas a fotografia e passarela.
Ryan nasceu no Rio de Janeiro e vive em Salvador desde os cinco meses de idade. Nas redes sociais, aparece como @ryan_dealcantara, mas a mãe faz uma distinção importante ao falar sobre sua presença digital: ela não o define prioritariamente como influenciador. O interesse da família, neste momento, está mais concentrado no desenvolvimento de Ryan como modelo infantil, entre ensaios, desfiles e experiências que ele demonstre vontade de viver.
Essa diferença de palavras diz bastante sobre a história. Existe uma indústria ao redor da imagem infantil, com seus castings, marcas, agências e redes sociais. Mas existe, antes dela, uma criança formando gostos, recusas e desejos. Segundo a mãe, Ryan tem personalidade forte e deixa claro aquilo de que gosta e aquilo que não quer. Se rejeita um calçado, por exemplo, insistir não costuma mudar sua decisão.
É justamente essa capacidade de dizer “sim” e “não” que orienta a forma como a família vem conduzindo seus primeiros passos profissionais.
A entrada de Ryan nesse universo não aconteceu de maneira linear. Sua mãe conta que procurava uma atividade extracurricular que pudesse interessá-lo quando identificou nas passarelas e nas fotografias uma possibilidade compatível com algo que ele já fazia por prazer.
A primeira tentativa, porém, trouxe frustração. Depois de uma seletiva em uma agência, vieram elogios, a proposta de produzir um book e, posteriormente, a percepção da família de que as oportunidades prometidas não estavam acontecendo. A experiência poderia ter encerrado ali a aproximação com o mercado. Ryan, no entanto, continuava perguntando quando voltaria a fazer fotos.
Foi assim que encontrou uma agência. Ryan participou de uma nova seletiva, passou por entrevista e teste fotográfico e foi aprovado. Segundo o relato materno, ele está na agência há cerca de três meses. A lembrança da aprovação permanece muito concreta: quando recebeu a mensagem, ela estava próxima ao trabalho de uma prima e foi até lá contar a notícia. Ryan sorriu ao saber que havia sido escolhido.
O que poderia parecer um detalhe é, na verdade, um bom critério para compreender essa trajetória. A continuidade não aconteceu porque os adultos decidiram que Ryan deveria ser modelo. Ela aconteceu depois que ele demonstrou querer voltar.
Outra experiência ajudou a transformar a curiosidade em algo mais palpável. Por indicação de uma mãe que a família conheceu na agência, Ryan chegou ao contato da responsável pelos fashionistas de Salvador, que buscava novos rostos para um desfile de outono/inverno de 2026.
Ele foi inscrito e desfilou.
A mãe conta que Ryan se divertiu e, depois, disse que tinha gostado muito da experiência e queria desfilar novamente. Para aquele trabalho, uma loja infantil parceira enviou um look com bermuda e camisa do Roblox. A escolha teve um efeito imediato: Ryan gosta do personagem e ficou particularmente animado ao perceber o que usaria na passarela.
É uma cena pequena, mas reveladora. Aos cinco anos, o sentido de um desfile não precisa estar em compreender a dimensão profissional daquele evento. Pode estar simplesmente no prazer de vestir algo de que gosta, entrar na passarela e descobrir que quer fazer aquilo outra vez.
Para sua mãe, uma das maiores conquistas até agora não é um trabalho específico. É acompanhar o crescimento da confiança do filho a cada desfile e sessão de fotos.
Há outra dimensão importante na maneira como essa história é conduzida dentro da família. Ryan é autista. A mãe, porém, não deseja que o diagnóstico determine antecipadamente como ele será percebido por quem o encontra.
Na entrevista concedida à VOLPH, ela explica que prefere que as pessoas conheçam primeiro a criança, observem seu comportamento e avaliem seu trabalho sem transformar a condição neurológica em um limite presumido. Sua preocupação é que Ryan tenha acesso às mesmas oportunidades oferecidas a outras crianças de sua idade.
A escolha exige precisão. O autismo faz parte da vida de Ryan, mas não oferece sozinho uma explicação para quem ele é, para aquilo de que gosta ou para o que poderá fazer. Tampouco deveria ser convertido em recurso narrativo para tornar sua história artificialmente mais emocionante.
Sua mãe relata que procura respeitar seus limites e seu tempo. Antes de confirmar uma participação, conversa com ele e pergunta se deseja ir. Também tenta filtrar a pressão que pode surgir com exposição e opiniões externas. A preocupação não é eliminar toda dificuldade, mas evitar que uma atividade que hoje lhe dá prazer se transforme em obrigação.
A frase estabelece uma fronteira importante entre expectativa adulta e experiência infantil.
Existe uma palavra que se repete, ainda que de maneiras diferentes, nas respostas da mãe de Ryan: tempo.
Tempo para posar. Tempo para aprender. Tempo para aceitar ou recusar um convite. Tempo para crescer.
Quando questionada sobre onde imagina o filho nos próximos três anos, ela evita desenhar um destino fechado. Espera que Ryan continue encontrando oportunidades relacionadas à sua faixa etária, mas diz não querer criar expectativas excessivas. Cada convite será apresentado a ele, e a decisão de participar continuará levando em consideração sua vontade.
Essa postura também aparece quando fala sobre possíveis marcas parceiras. Para a família, fazem sentido empresas ligadas ao universo infantil, moda para crianças, brinquedos e produtos coerentes com sua idade. Há, entretanto, uma exigência anterior à estética ou à exposição: compreender que cada criança possui ritmo, personalidade e limites próprios.
No caso de Ryan, o conteúdo publicado nas redes acompanha essa lógica. A mãe costuma compartilhar registros de eventos, roupas recebidas em trabalhos ou parcerias e momentos espontâneos do filho. Ela reconhece que o perfil ainda precisa de maior organização e coerência editorial, mas prefere não forçar situações para produzir conteúdo.
Essa decisão preserva algo que pode facilmente desaparecer quando infância e imagem profissional começam a ocupar o mesmo espaço: a diferença entre registrar uma criança e dirigir permanentemente a sua existência para a câmera.
Uma fotografia pronta não mostra a preparação. Um desfile não revela necessariamente as conversas anteriores. Um vídeo curto tampouco registra todos os cuidados envolvidos para entender se aquela criança está confortável naquele dia.
A mãe de Ryan fala dos imprevistos, da correria, das orientações, dos “puxões de orelha” e, principalmente, da atenção constante ao ritmo do filho. O bastidor que ela descreve é menos glamouroso do que a imagem final e justamente por isso ajuda a compreender melhor o que está sendo construído.

Seu desejo profissional para Ryan é amplo: que ele cresça no mercado, trabalhe com marcas que admire e, eventualmente, possa ser conhecido também fora do país. Mas há uma ressalva que modifica completamente o peso dessa ambição. Ela quer que ele tenha liberdade para escolher o próprio caminho.
Ryan tem cinco anos. É cedo demais para saber até onde a moda fará parte de sua vida — e a própria família não tenta responder a essa pergunta agora.
Por enquanto, há fotos, uma agência, um primeiro desfile, novas possibilidades e um menino que continua dizendo quando gosta e quando não gosta.
Talvez o dado mais importante de sua estreia esteja exatamente aí: enquanto os adultos organizam castings, ensaios e compromissos, Ryan ainda conserva o direito de decidir se quer entrar em cena.